Quando o preço do bezerro está valorizado, os pecuaristas que fazem cria se animam e investem em matrizes para gerar mais animais. A alegria dos criadores se transforma em menores lucros para quem faz recria e terminação. Para estes, quanto menos custar um bezerro ou um boi magro, melhor.
Essas oscilações preço são cíclicas e vêm se repetindo ao longo dos anos, guiadas pela oferta e demanda das diferentes categorias animais no mercado. Se acontece sempre, por que é que os pecuaristas ainda não pensaram em uma maneira de driblar esses altos e baixos? Não é tão simples, concordam os analistas. O próprio ciclo do animal é lento; leva de dois a três anos para que as descisões tomadas pelos produtores sejam sentidas e causem impacto nos preços.
Desde 2004, em vários estados, registra abate acentuado de matrizes, que atingiu seu pico em 2006. Naquele ano, a taxa de abate de fêmeas chegou a ficar acima de 50%, quando o ideal para a manutenção é um índice abaixo de 40%. Os criadores adotam esta estratégia quando a rentabilidade está baixa. Vendem fêmeas para se capitalizar. Como havia grande oferta de bois no mercado, o bezerro estava desvalorizado e não compensava fazer cria. "De 2004 a 2007, houve períodos em que se conseguia fazer reposição de até três bezerros desmamados para cada boi gordo vendido, uma condição excepcional!", lembra Zeno Albert, consultor em pecuária de corte.
Com menos matrizes disponíveis, a oferta de bezerros diminui. A partir de 2007, a procura voltou a crescer por um motivo específico: a explosão de confinamentos por todo lugar. Os preços subiram, já que também começou a faltar boi gordo terminado. Dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) indicam que, em cinco meses, de fevereiro a junho do ano passado, o preço da arroba subiu 36%.
Diante disso, os pecuaristas voltaram a reter as fêmeas nas fazendas; fazer cria passou a ser de novo vantajoso. Desde então, a produção de bezerros tem crescido. De acordo com os dados do Instituto de Defesa Agropecuária do Estado de Mato Grosso (indea-MT), de maio de 2008 a maio deste ano o número de bovinos vacinados com idade entre 0 e 24 meses aumentaram em 590.837, ou 5%. "Atualmente, a oferta de boi magro, bezerro (para fazer boi magro) e bezerra (para fazer matriz) está valorizada", informa Luiz Carlos Meister, consultor de pecuária de corte da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Mato Grosso (Famato). Para ele, o que influencia a mudança das fases do ciclo da pecuária é sempre a lei da oferta e da demanda.
TENDÊNCIAS - Seguindo o ciclo da pecuária, pode ser que a oferta de boi gordo cresça nos próximos anos e pressione ainda mais os preços da arroba dessa categoria animal para baixo. Na opinião de Meister, a fase atual é aparentemente de início da reversão do ciclo de alta. Como o investimento em produção de bezerros já vem sendo feito desde 2007, segundo o consultor, daqui a dois anos ou dois anos e meio é possível haver uma explosão de oferta de boi gordo. "O rebanho tende a continuar crescendo até 2010, 2011, por causa da maior retenção de matrizes, o que gera mais bezerros. Assim no futuro, o preço tende a cair. Primeiro do boi gordo, depois do boi magro, do bezerro e da bezerra", prevê.
Rogério Goulart, pecuarista em Mato Grosso do Sul, administrador de empresas e editor da Carta Pecuária da Scot Consultoria, aconselha os pecuaristas a ficarem atentos quanto aos preços do bezerro. "Está todo mundo criando bezerro e esses animais uma hora ou outra vão aparecer no mercado, como de fato já está acontecendo. Já se percebe uma oferta relativamente melhor do que em 2008", argumenta. Segundo Goulart, não é um aumento suficiente para dizer que o mercado já caiu, porém já é sensível para quem acompanha esse mercado no dia-a-dia. "Se você analisar, o bezerro valia quase R$ 700 reais em 2008, hoje vale bem menos".
De fato, o preço do gado para reposição caiu nos últimos meses, porém a arroba caiu mais.
FUTURO - Como estimativas do mercado futuro apontam preços estáveis da arroba até agosto do ano que vem, sem grandes altas, é possível que isso também tenha refletido no preço do bezerro. Do primeiro semestre até agosto do ano passado, a arroba do boi gordo no mercado futuro bateu em R$ 100 para a região de São Paulo, mas que esse valor não se confirmou no mercado físico. Consequentemente, houve elevação excessiva no ano passado e queda atual dos preços seria apenas um processo de correção desta rota. "Para afiramar que os preços menores da cria são uma questão cíclica, teríamos que ter uma redução do número de matrizes e/ou acompanhada de uma redução de sua produtividade. E isso não é possível de se confirmar hoje", diz Sérgio Zen, do Cepea.
Goulart diz que o criador, se tiver dinheiro, terá que investir em aumento de produção de bezerros na mesma área. "O produtor poderá vender o bezerro mais barato e mesmo assim ganhar dinheiro. Se não tiver dinheiro, não vai ter muito o que fazer a não ser rezar", analisa.
Ter os custos do produto na ponta do lápis também ajuda o pecuarista a formar seu preço de venda e a programar o aumento ou diminuição da produção. Sérgio de Zen observa que, muitas vezes, o pecuarista não sabe quanto custa seu produto, apenas reclama do preço que oferecem. "O processo de preço não cai e não sobe de um dia para o outro, vai se adquando. Por isso, o produtor tem que ir colocando custo e preço de venda até saber exatamente o que está acontecendo", aconselha.
Driblar as oscilações de preço é um só: profissionalismo. "Na pecuária, não tem lugar para poeta. Quem não for altamente profissional, não investir em genética, vai acabar saindo da atividade", assevera.

